Problema com documentos da carga e o baixo número de funcionários em postos fiscais e estações aduaneiras são dificuldades constantes na vida dos motoristas de caminhão que fazem rota internacional e passam por Uruguaiana, na divisa do Brasil com Argentina. Além da burocracia, os carreteiros enfrentam problemas com a falta de segurança e banheiros, entre outras deficiências, que também fazem parte da rotina enquanto aguardam pela liberação da carga.
Quando o carreteiro inicia uma viagem, é de se esperar que toda a documentação do veículo e da carga esteja em ordem, evitando transtornos com eventuais paradas nos postos policiais, postos fiscais ou estações aduaneiras, em viagens aos países integrantes do chamado Mercosul, cada vez mais frequentes em razão do crescente intercâmbio comercial na região. Todavia, a questão da falta de documentação completa é uma constante na vida dos carreteiros, sobretudo daqueles que atuam no transporte internacional, onde as regras nunca ficaram bem definidas, apesar dos sucessivos acordos entre os países, a começar pelas relações entre Brasil e Argentina.
Em Uruguaiana/RS - fronteira do Brasil com a Argentina e onde se localiza um dos mais importantes portos secos da América Latina e por onde passam cerca de 650 caminhões de cargas por dia -, os motoristas estão acostumados a longas esperas, que em muitos casos chegam a três dias nas filas. E tudo por conta da burocracia, falta de documentos, demora no atendimento resultante de poucos funcionários e do horário reduzido de expediente público. Os carreteiros precisam se submeter a essas esperas estacionando seus caminhões em postos de combustíveis ou, se ficam na fila estão sujeitos ao assédio de prostitutas e correndo o risco de assaltos. Isso tudo suportando calor, chuva, ataque constante de mosquitos e a falta de banheiros.
A situação piorou ao longo dos últimos meses, depois de as autoridades brasileiras terem optado pela redução do turno de atendimento na estação aduaneira, como forma de evitar ao máximo o risco de contaminação com o vírus da Gripe A e, também, pela exigência da LI (Licença de Importação), fiscalizada com maior frequência pelo Brasil, para mercadorias vindas da Argentina.
Nesses casos, não há Mercosul que resolva. Diante de uma série de salvaguardas protecionistas tomadas pelo governo argentino em favorecimento ao mercado interno, o governo brasileiro decide retaliar, criando dificuldades na importação de mercadorias daquele país, conforme admite o presidente do Sdaergs (Sindicato dos Despachantes Aduaneiros do Rio Grande do Sul), Lauri Kotz, 60 anos e 46 de experiência no setor aduaneiro. Segundo ele, existem trâmites diferenciados nas operações de exportação e importação. As exportações são mais rápidas, seguindo uma parametrização que em 90% dos casos as cargas vão para o "Canal Verde", com a liberação quase imediata. Depois, em alguns casos, surge o chamado "Canal Amarelo", quando mercadoria e documentação são verificadas e, finalmente, o "Canal Vermelho", para cargas ou documentos considerados suspeitos de irregularidades. Na importação tudo é mais difícil, começando pela exigência da Licença de Importação, que atrasa muito a entrega da mercadoria ao importador, encarecendo o produto ao consumidor final.
O Brasil tem interesse em exportar e a fiscalização não é tão rigorosa. Porém, nas importações, e, em razão da "guerra comercial" entre Brasil e Argentina, com salvaguardas para determinados produtos, acabam surgindo essas dificuldades aduaneiras em que todos sofrem, principalmente o motorista de caminhão. Lauri Kotz critica a falta de clareza nas negociações, pelo fato do Brasil aceitar pacificamente que a Argentina impusesse salvaguardas a uma série de produtos brasileiros, surgindo um inevitável desencontro entre os negociadores e as decisões dos governos.
O delegado da Receita Federal, em Uruguaiana/RS, Jorge Luiz Hergessel, lembra que a Receita apenas cumpre as determinações de outros órgãos que fazem fiscalização ou exigências específicas a cada tipo de mercadoria. Ou seja: a Receita apenas verifica a documentação. Salienta que alguns produtos que antes eram liberados com facilidade agora necessitam da Licença de Importação, com critérios técnicos determinados pelo Decex (Departamento de Comércio Exterior). Esclarece que muitas mercadorias chegam à aduana sem esse documento, daí a necessidade de solicitação. Essas licenças podem ter um prazo de até 60 dias para a liberação, mas na realidade essa demora nunca ultrapassa os 10 dias. Destaca, também, que o setor opera com 20 pessoas quando o ideal seriam 30, além da redução de horário de atendimento, que teria sido ajustado em comum acordo com despachantes e transportadores, depois da alteração ocorrida durante o auge da Gripe A.